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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DEUS EXISTE.....?

Abaixo, a resposta de Tomás de Aquino para a pergunta: “Deus existe?”. 
Note o estilo utilizado pela escolástica: uma pergunta, o exame das respostas possíveis, a escolha da melhor resposta, ainda que esteja em contradição com algum filósofo da Tradição ou mesmo que esteja em contradição com alguma passagem da Bíblia. 
Isso mostra que, ao contrário do que constuma-se dizer, a chamada Idade Média não foi um período de obscurantismo dogmático. 
Foi, ao contrário, uma das épocas em que a discussão intelectual foi mais livre, pelo menos no campo teórico.
 Lembremos que, mesmo durante a Inquisição, o problema não era discutir teoricamente. Isso era amplamente possível. 
O problema era propor uma teoria contrária à tradição como verdadeira de fato. 
Ora, muitas vezes a própria Igreja era mais prudente a respeito do que era verdadeiro e do que não era do que os próprios pesquisadores. 
Por exemplo, Galileu foi orientado pelo Papa a publicar seu trabalho deixando claro que suas hipóteses a respeito do geocentrismo não passavam de hipóteses; ora, era possível que Deus, sendo onipotente, tivesse feito o universo de um modo ou de outro, e não cabia aos homens decidir de uma vez por todas qual teria sido o projeto divino. 
Galileu somente foi processado pela Inquisição, e declarado culpado, por defender que sua teoria, que ia contra a tradição e as Escrituras, eram verdadeiras de fato (e, lógico, também por ter ridicularizado o Papa, ou pelo menos as afirmações do Papa, em uma de suas obras).
Dentro das Universidades, a discussão teórica era ampla e abarcava todos os assuntos possíveis. Até mesmo um tema como a própria existência de Deus era discutida – e pelo filósofo que,  posteriormente, a Igreja considerou como aquele que produziu a filosofia oficial do Catolicismo, Tomás de Aquino.
Abaixo, a resposta de Tomás à pergunta – resposta que inclui as famosas Cinco Vias para a demonstração da existência de Deus.
DEUS EXISTE.....?
Parece que Deus não existe; porque se um de dois contrários for infinito, o outro seria, em conjunto, destruído. 
Mas a palavra “Deus” significa que Ele é o bem infinito. Se, portanto, Deus existisse, não haveria mal possível; mas há mal no mundo. 
Portanto, Deus não existe.
Além disso, é supérfluo supor que o que pode ser tomado a partir de poucos princípios tenha sido produzido por muitos. Mas parece que tudo que vemos no mundo pode ser tomado por outros princípios, supondo que Deus não exista. 
Pois todas as coisas naturais podem ser reduzidas a um princípio que é a natureza; e todas as coisas voluntárias podem ser reduzidas a um princípio que é a razão humana, ou a vontade. Portanto não há motivo para supor a existência de Deus.
Ao contrário: É dito na pessoa de Deus: “Eu sou aquele que é.” (Ex. 3:14)
Na resposta a isso: A existência de Deus pode ser provada em cinco vias.
A primeira e mais manifesta via é o argumento pelo movimento. É certo e evidente aos nossos sentidos que no mundo algumas coisas estão em movimento. Ora, o que quer que esteja em movimento é colocado em movimento por outra coisa, pois nada pode estar em movimento exceto esteja em potencialidade em orientado àquilo pelo que se move. Quem move está em ato. 
Pois mover não é mais que passar da potência ao ato. A potência não pode passar a ato mais que por quem está em ato.
 Exemplo: o fogo, em ato quente, faz que a madeira, em potência quente, passe a quente em ato. Deste modo a move e a muda. Mas não é possível que uma coisa seja o mesmo simultaneamente em potência e em ato, somente ser em diferentes respeitos.
 Pois o que é atualmente quente não pode simultaneamente potencialmente quente; mas é simultaneamente potencialmente frio. É portanto impossível que no mesmo respeito e do mesmo modo uma coisa possa ser simultaneamente movedora e movida, isto é, que possa mover a si mesma.
 Assim, o que quer que esteja em movimento deve ser posta em movimento por outro. Mas se o que é movido por outro se move, necessita ser movido por outro, e este por outro. Este procedimento não pode ocorrer infinitamente, porque então não haveria um primeiro movedor e, consequentemente, nenhum movido. 
Portanto é necessário chegar a um primeiro motor, que não é movido por outro; e este todos compreendem ser Deus.
A segunda via é a da natureza da causa eficiente.
 No mundo dos sentidos nós encontramos uma ordem de causas eficientes. 
Sem dúvida, não encontramos, nem é possível, que algo seja causa eficiente de si mesmo, pois seria anterior a si mesmo, coisa impossível.
Nas causas eficientes não é possível proceder indefinidamente porque em todas as causas eficientes há ordem: a primeira é causa da intermediária; e esta, seja una ou múltipla, é a causa da última. 
Posto que, se se quita a causa, desaparece o efeito; se na ordem das causa eficientes não existisse a primeira, tampouco haveria a última nem a intermediária. 
Se nas causas eficientes levássemos infinitamente este procedimento, não existiria a primeira causa eficiente; consequentemente, não haveria efeito último nem causa intermediária; e isto é absolutamente falso.
Portanto, é necessário admitir uma causa eficiente primeira. Todos a chamam Deus.
A terceira via é a que se deduz a partir da possibilidade e da necessidade.
Notamos que na natureza as coisas podem existir ou não existir, podem ser produzidas ou destruídas, e consequentemente é possível que existam ou que não existam. 
Mas é impossível a elas existirem sempre, pois o que leva em si mesmo a possibilidade de não existir, em um tempo não existiu.
Se, pois, todas as coisas levam em si mesmas a possibilidade de não existir, houve um tempo em que nada existiu. 
Mas se isto é verdade, tampouco agora existiria algo, posto que o que não existe não começa a existir senão por algo que já existe.
Se, pois, nada existisse, é impossível que algo começasse a existir; consequentemente, nada existiria; e isto é absolutamente falso. 
Logo nem todos os seres são somente possibilidade; é preciso algum ser necessário. 
Mas todo ser necessário ou tem sua necessidade causada por outro, ou não a tem. 
Por outro lado, é impossível seguir à infinidade as coisas necessárias que têm sua necessidade causada por outra, como já foi provado a respeito das causas eficientes. Portanto, é preciso postular a existência de algum ser que possua em si mesmo sua própria necessidade, não tendo recebido-a de outro ser, mas causando a necessidade em outros.
 Todos os homens chamam a este ser Deus.
A quarta via é tomada da gradação encontrada nas coisas. 
Entre os seres há alguns mais e alguns menos bons, verdadeiros, nobres e assim por diante. 
Contudo, “mais” e “menos” são predicados de coisas diferentes, de acordo com a semelhança maior ou menor a algo que é o máximo, como se diz de uma coisa ser mais quente quanto mais pareça a coisa maximamente quente. 
Há algo, portanto, que é maximamente verdadeiro, maximamente bom, maximamente nobre; e, consequentemente, é o máximo ser; pois as coisas que são sumamente verdadeiras são seres máximos, como se diz em II Metaph. (MULHERES)
Ora, o máximo em qualquer gênero é a causa de todos nesse gênero; como fogo, que é o calor máximo, é a causa de todas as coisas quentes. 
Portanto deve haver também algo que seja de todos os seres a causa de seu ser, de seu bem e de todas as outras perfeições; e a este chamamos Deus.
A quinta via é tomada do ordenamento do mundo.
Pois vemos que há coisas que não têm inteligência, como são os corpos naturais, e que agem para um fim, e isso é evidente por agirem sempre, ou quase sempre, do mesmo modo, para obter o melhor resultado. 
De onde se deduz que, para alcançar seu objetivo, não agem ao acaso, mas intencionalmente. 
As coisas que não têm inteligência não podem agir em direção a uma finalidade a não ser que sejam dirigidas por alguém com inteligência e conhecimento, como a flecha é atirada no alvo pelo arqueiro.
Portanto algum ser inteligente existe, pelo qual todas as coisas naturais são dirigidas a sua finalidade; e a este ser chamamos Deus.
Como diz Agostinho (Enchididion xi): “Já que Deus é o mais alto bem, Ele não permitiria que nenhum mal existisse em Suas obras, a não ser que Sua onipotência e bondade fossem tais que extraíssem o bem mesmo do mal”. 
Isso é parte da bondade infinita de Deus, que ele permita que o mal exista, e que do mal produza o bem.
 Já que a natureza trabalha para uma determinada finalidade sob a direção de um agente mais alto, o que quer que seja feito pela natureza precisa ser traçado de volta a Deus, como sua primeira causa. 
Então também o que quer que seja feito voluntariamente deve ser traçado de volta a uma causa mais elevada que não a vontade ou a razão humana, já que estas podem mudar ou errar; pois todas as coisas que são mutáveis e falíveis devem ser traçadas de volta a um primeiro princípio imóvel e autonecessário.
Aceitar as diferenças e que sua imagem seja a semelhança........!

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